


Num fluxo constante de imagens efêmeras, a obra de Ju Chaves finca raízes na permanência luminosa do vidro e na paciência construtiva do mosaico. Esta não é mera escolha estética, mas a forja de uma linguagem singularíssima: um vocabulário translúcido capaz de articular o que muitas vezes escapa às palavras – a simbiose entre força e vulnerabilidade, a intrincada teia que liga o feminino ancestral à urgência ecológica contemporânea.
Aqui reside sua excelência, nutrida tanto por essa profundidade semântica quanto pela maestria técnica – habilidade ímpar de manipular um material que, por natureza, evoca a dualidade da luz e da sombra, da fragilidade e da resistência. Sua trajetória, que transita da precisão da computação gráfica para a entrega tátil do fazer artesanal, confere-lhe uma perspectiva única, onde estrutura e emoção se entrelaçam, provando que a arte mais potente é aquela que nos ensina a ver – e a sentir – o mundo de novo.




“Houve um tempo em que minha linguagem era feita de pixels, de estruturas lógicas e telas que se acendiam ao meu comando. A computação gráfica me deu a base, a disciplina do design, a compreensão da composição. Mas minhas mãos sentiam a necessidade da matéria, do peso, da aresta, do risco. Eu precisava de um diálogo que a tela, por mais brilhante que fosse, não poderia me oferecer.
O vidro não foi uma escolha, foi um chamado. Um encontro. Nele, reconheci a dualidade que sempre me habitou: a força que resiste e a vulnerabilidade que se quebra. A transparência que revela e a cor que guarda mistérios. Ele não era um material inerte; era um espelho da alma, um professor silencioso.
Com ele, aprendi a escutar o silêncio das formas. Aprendi que o processo de criação é um ritual de paciência. O corte preciso do vidro é um ato de coragem; a pintura de cada fragmento, um sopro de vida; a queima no forno, uma entrega ao fogo transformador. Unir as peças, por fim, é como costurar memórias, dando novo sentido ao que um dia foi partido.
Essa ideia do fragmento que se reconstrói é, talvez, o coração do meu fazer. O vidro me ensina que na quebra não existe um fim, mas uma possibilidade de recomeço. A luz que atravessa uma fenda é o que revela a beleza da cura.
Hoje, quando me perguntam sobre meu trabalho, não falo apenas de técnica ou de estética. Falo de um diálogo. Eu converso com a luz, com a memória do fogo e da areia, com o feminino ancestral que pulsa em cada curva. O vidro não é apenas o que eu faço. Ele é a matéria com que traduzo o que sinto, o que vejo e o que sou.”
Ju Chaves
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Existem lugares onde a arte toca a terra com reverência, como quem caminha descalço por territórios sagrados. A série “Biomas” de Ju Chaves habita este espaço entre o visível e o essencial, afirmando-se como um gesto de cuidado, denúncia e profunda contemplação.





